Imprensa

Dr. Ozires Silva conversa sobre empreendedorismo e futuro da economia com jornal A Tribuna

Confira abaixo a entrevista exclusiva concedida pelo Dr. Ozires Silva para o jornal A Tribuna.

 

Arminda Augusto

Da Redação

“Criar uma empresa é como voar, começa com um sonho”. Esta é uma das frases mais emblemáticas de Ozires Silva, presidente do Conselho Estratégico da Ânima Educação, que integra a São Judas, e acaba de lançar o livro ‘Rotas para o Empreendedorismo’.

De empreender Ozires Silva entende. Fundou e presidiu uma das empresas mais emblemáticas do Brasil, a Embraer, em 1969.

Nesta entrevista, ele fala sobre empreender no País, a necessidade de constante inovação e o papel da Educação nesse processo, especialmente para os jovens.

O novo livro já está disponível para venda no site da Editora Letramento e  livrarias do país, e faz parte das comemorações dos 90 anos do autor, completados em março.

 

O senhor ‘empreendeu’ de forma bastante assertiva e perene em 1969, com a criação da Embraer, empresa que até hoje está aí. Se tivesse que destacar dois ou três elementos que foram fundamentais para que esse ‘empreendimento’ desse certo e prosperasse, quais seriam?

Foi realmente um grande desafio o processo de dar vida à produção nacional de aviões na forma como a Embraer o fez. Até então o Brasil já havia produzido aviões, mas eram em geral experimentais ou licenciados de fabricantes de outros países, sempre com pouca escala. O desafio da Embraer era trazer ao mercado aviões que atendessem demandas reais e pudessem gerar um fabricante que se autosustentasse. Para que isso fosse feito, enfrentamos toda sorte de obstáculos, mas destaco a motivação e qualificação do grupo de pessoas que se reuniu em torno desse objetivo como fator fundamental para que ele prosperasse. Houve também o foco em criar um avião que fosse atraente para compradores, fugindo da tendência puramente acadêmica ou científica.

 

O ambiente onde a Embraer foi pensada e criada já era, naquela época, inovador, com educação de ponta e tecnologia. O senhor diria que inovação e tecnologia são condições imprescindíveis hoje para um negócio dar certo?

Sem dúvidas. Há exemplos em todas as áreas de que inovar e incorporar tecnologia a produtos ou serviços é fator de expansão e sucesso aos negócios. Na aviação ou na educação, setores em que mais atuei em minha vida, não se sobrevive sem olhar sempre para frente, mudando seus paradigmas de tempos em tempos. E o que mais chama a atenção é o contínuo aumento da velocidade com que se precisa inovar e incorporar a tecnologia para se manter firme nos negócios. Hoje a Embraer, por exemplo, faz parcerias para desenvolver drones. E é parceira da Uber para desenvolver novas tecnologias para transporte individual. Quem diria isso há alguns anos, mas hoje é necessário. Intrigam-me quais serão as próximas inovações que logo veremos.

 

Muito se tem falado sobre o empreendedorismo como um caminho certo para os jovens, já que o emprego formal está escasso. O senhor acha que as escolas e as universidades preparam esse jovem para o universo do empreendedorismo?

É absolutamente necessária a atenção a esta evolução da sociedade. Vejo hoje meus bisnetos assistindo ao YouTube em vez de televisão, sabem operar melhor em gadgets do que qualquer adulto. Parecem nascer sabendo isso já. A intensidade do conhecimento e a velocidade das expectativas dos jovens hoje não têm mais paralelo com nada que ocorreu antes. Como a educação poderia não ser chamada a atuar nesse novo cenário? Observo muito a educação e tenho a felicidade de estar contribuindo com a Ânima Educação. A Ânima é um exemplo de organização educacional que coloca o empreendedorismo e a inovação à frente nos seus objetivos de formação de bons profissionais ao mercado.

 

É possível ser empreendedor dentro da empresa onde se é funcionário? O senhor diria que essa é uma característica que se espera de um colaborador nas empresas modernas?

Boa pergunta. Conciliar as obrigações formais de um emprego com as oportunidades de empreender e inovar é um desafio para as organizações. Há tanto potencial nas pessoas que precisa ser liberado. Não sou do tempo em que esse assunto estava tão em evidência, mas de alguma forma penso que a Embraer soube fazer isso. Tantas soluções incríveis para a aviação foram criadas pela equipe da empresa desde seu início nos anos 70, muitas dessas soluções foram adotadas na aviação mundial e são vistas hoje em aviões de grandes fabricantes. Essas equipes de excelência têm então o desafio de criar novas soluções e novamente saltar à frente do mercado. Esse é um exemplo do mercado de aviação, mas penso que cada setor tem o mesmo potencial.

 

O senhor diria que a cultura do empreendedorismo entre os jovens está mais presente em quais países?

Não sei se sou capaz de responder essa pergunta sem ser injusto com algum eventual esquecimento. Penso que o Brasil tem ilhas de excelência, mas ainda com um longo percurso para que essa cultura permeie toda a sociedade. Para isso será fundamental o suporte do setor público, tanto em políticas de educação, mas em incentivos à inovação e regramento favorável ao ambiente dos negócios. Os Estados Unidos não podem deixar de serem mencionados quando se fala em empreendedorismo, afinal é quase uma religião na cultura do país, mas temos vários outros casos. Parece-me que países como a Coreia do Sul, Israel e Austrália fazem um excelente trabalho.

 

A desigualdade social é base para uma série de problemas que vemos hoje, em todos os segmentos. O que dizer para aquele jovem que vive na periferia, aluno de escola pública, que precisa ajudar no orçamento da família, mas tem uma ideia na cabeça e gostaria de desenvolvê-la? Que passos ele deve trilhar?

Infelizmente a realidade de desigualdade no Brasil, e também em outros países, inibe muitas pessoas com enorme potencial. Teria por exemplo Albert Einstein tido oportunidades de avançar tanto com a ciência se não tivesse nascido na Alemanha, mas em um país sem recursos para suportar a educação e a pesquisa que ele teve? O papel das sociedades é dar oportunidades para as pessoas se desenvolverem e devolverem isso à sociedade com seu sucesso pessoal e profissional. Essa maturidade na gestão dos países ainda não está presente em todos os locais.

 

O senhor sempre fala em Educação, que a Educação transforma e é a base de tudo. Considerando o estrago provocado pela pandemia justamente nessa que é uma área tão relevante, que medidas/atitudes/políticas públicas deveriam ser adotadas de forma emergente para recuperarmos o tempo perdido e mitigarmos esse prejuízo?

A pandemia de fato teve impacto enorme em todos os setores e não foi diferente com a educação. Quando se fala na educação básica preocupo-me com a quantidade de crianças e jovens que ficaram longos períodos afastados do processo educacional. Sabemos que algumas escolas conseguiram suprir essa lacuna com educação a distância, mas isso não chegou a todos. Essa tecnologia é nova e a pandemia mostrou a urgência de se criar outras formas de passar conhecimento além da aula presencial tradicional. Já na educação superior, penso que o próprio aluno está mais maduro para se adaptar junto com o processo e manter seus objetivos de educação mesmo em pandemia. A todos os perfis de estudantes, entendo que a pandemia mostrou que a capacidade de inovar e adaptar é uma realidade para o novo mundo que emergirá após a pandemia.

 

Em muitos setores da economia, inclusive aqui no Porto de Santos, falta mão-de-obra qualificada especialmente na área da tecnologia. Por outro lado, continuam sendo formados centenas de milhares de jovens em vários cursos. Onde está o gap? Além disso, como afinar melhor o currículo dos cursos na faculdade e a verdadeira necessidade do mercado?

A aproximação da escola com o setor produtivo é a saída. Educação apenas teórica não atende as necessidades da sociedade. Vejo com satisfação, novamente mencionando a Ânima Educação, que essa preocupação é crescente. Veja por exemplo o projeto Ânima Nest, recentemente lançado. Este programa visa a incentivar a criação de empresas startups colocando os alunos em contato com a realidade, a dita “mão na massa”. Lembro-me do exemplo de um dos meus filhos, formado em engenharia no início dos anos 90. Ele levou um susto ao chegar ao mercado após o término do curso e ver realidades muito diferentes da teoria aprendida na faculdade. Ele felizmente teve capacidade de se atualizar e adaptar, mas é urgente que o ensino, em todos os seus níveis, forme profissionais que possam rapidamente ajudar a sociedade a evoluir e crescer.

 

O senhor conhece bem a Baixada Santista. Os pilares da economia aqui são Porto, Pólo de Cubatão, Turismo e discute-se outros caminhos para serem fomentados. Onde o senhor enxerga novas oportunidades para a nossa região?

Assim como as empresas ou os países, as cidades também devem inovar, visando o crescimento do bem-estar de suas populações. Esse crescimento deve analisar o presente e observar o futuro para o desenvolvimento de atividades que venham a propiciar esse bem-estar por um longo período. Interagir com os agentes da sociedade, esse é o desafio dos gestores públicos. Aumenta-se esse desafio, pois esse tipo de planejamento vê resultados em prazos que excedem um mandato eletivo. Por isso a sociedade deve participar e garantir sua continuidade mesmo com a natural alternância do gestor público.

 

Falando em aviação, como o senhor vê o futuro da Embraer, depois que naufragou a negociação com a Boeing, em um mercado competitivo com as outras montadoras de aviões? E como vê a entrada da China nesse mercado?

A Embraer tem um futuro brilhante dado seu excepcional posicionamento de mercado e capacidade inovadora de todo o seu time. Fico tranquilo quanto a isso. A China é um participante de respeito em qualquer mercado. Na aviação eles estão iniciando, mas tem potencial de se tornarem um player relevante. A Embraer saberá atuar com eles no mercado, que será sempre competitivo.

 

 A pandemia fez o mercado da aviação comercial sofrer o maior baque da sua história depois da segunda guerra. Pouco antes, a Avianca no Brasil faliu e agora há uma discussão em torno de uma possível compra da Latam pela Azul. Como o senhor vê a aviação comercial brasileira nos próximos 5 ou 10 anos? Será de monopólios?

Não consigo avaliar a questão de monopólios, embora eu a ache pouco provável. A legislação da aviação no Brasil não tem elementos que a direcionem ao monopólio. Podemos ver inclusive neste momento uma nova empresa de aviação iniciando sua vida, a Itapemirim. A pandemia foi um evento dramático para todo o setor de turismo e viagens, mas a pandemia – espera-se – tem prazo para acabar. As pessoas continuarão a viajar. Não se concebe o ser humano moderno sem que ele viaje. Isso foi assimilado por nossa cultura e penso só crescerá.

 

Em 2002 o Brasil migrou para um regime de liberdade tarifária. O valor dos bilhetes caiu pela metade e o número de passageiros triplicou. Mas no Brasil ainda se voa menos se comparado a outros países. O senhor diria que há excesso de regulação ou o quê?

O Brasil é um dos países com maior número de voos domésticos. Isso se deve também às dimensões do nosso país, mas também ao gosto do brasileiro em viajar. O aumento da demanda por viagens está diretamente relacionado com o aumento da renda da população e o crescimento econômico do país. Temos que retomar o caminho do crescimento e logo veremos a aviação crescendo fortemente.

 

Por fim, aos 90 anos, se tivesse a oportunidade de refazer/repensar/melhorar algum trecho da sua trajetória profissional ou intelectual, qual seria?

Pergunta difícil, mas me orgulho do que conquistei com o apoio de pessoas formidáveis com quem convivi. Não posso exigir mais.