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Por um Lugar de Destaque no Mundo

Em 1901, o grande pioneiro da aviação, Alberto Santos Dumont, tornou-se não só um dos maiores brasileiros, mas sobretudo um dos destacados homens da humanidade, ao dar uma volta completa em torno da Torre Eiffel, em Paris, com seu Balão No. 6, demonstrando a possibilidade da dirigibilidade aérea. Continuando seus esforços, cinco anos mais tarde, o nosso genial patrício decolava pela primeira vez em Bagatelle com seu 14-Bis, mostrando que brasileiros eram capazes de produzir tecnologias e conhecimento, não apenas produtos primários. Mais do que isso, nosso país mostrava por seu ilustre filho ter iniciativas e tomar nas mãos as rédeas de novo destino, antecipando e lutando para fabricar um futuro diferente e melhor.

 
Tudo isso acontecia porque o carisma do nosso aeronauta, pequeno e franzino, mas determinado e criativo, não se constituía num fato isolado. Naquele momento de alvorecer da República, o progresso industrial e urbano, emergia como um símbolo de vontade de progredir, desenvolver-se. Entre as chamadas com orgulho de “cousas da República”, ganhava forma uma autêntica reforma cultural e educacional. Procurava-se melhorar a qualidade dos professores para competir com as universidades europeias, procurava-se incentivar o ensino técnico, incentivar as escolas de engenharia, enfim, recuperar o tempo perdido.

 

O Brasil avançou. Contudo, não conseguiu despojar-se da herança colonial que se projetaria como sombra para o futuro. Nas últimas quatro décadas tal fenômeno tem se revelado mais intenso e dramático. Ao contrário dos idos da conquista de Santos Dumont, não temos acompanhado o mundo moderno em múltiplas frentes, mas é na educação que o desafio tende a ser mais complexo e, também, mais ameaçador dado ao seu potencial de propagar o atraso. Isto porque nos falta a capacidade para formar especialistas em áreas estratégicas, como as de ciência e tecnologia, além da notória falta de pragmatismo à inovação e à criatividade. Guardadas as distancias no tempo e na história, parece que estamos condenados a repetir em pleno Século 21 a triste experiência de Portugal dos idos do Marques de Pombal, quando o antigo reino colonial perdeu a corrida tecnológica para os países europeus.

 

A diferença do drama do século XVIII é que hoje somos uma nação dita democrática, embora convertidos a um tipo de dogmatismo, que nos leva à rabeira do mundo moderno, pluralista e criativo, dominado pela educação e cultura do Hemisfério Norte. Na realidade, temos nos limitado a viver o presente, sem despertar para o futuro e pensar no que vai acontecer. Os sucessivos governos da atualidade tomaram posição de comandar a vida da nação, submetendo os cidadãos às condições a meros cumpridores de regras ditadas pelo partido político majoritário.

Como desdobramento, ampliou-se a exclusão. Nunca, nem mesmo nas épocas dos levantes, que abalaram o período da Regência e o começo da República – marcados pelo doloroso massacre de Canudos, a nossa história foi testemunha de tamanho desequilíbrio social. As difíceis condições dos ensinos básico e universitário servem de metáfora para a extensão de tais conflitos. A crítica do quadro atual exige questionar o que aconteceu com o Estado brasileiro.

 

Teimamos em não reformar. Olha-se em volta e é fácil constatar que falta quase tudo: desde a definição de um modelo de educação até a um projeto de desenvolvimento, mesmo que primário. Falta criar condições para que a escola pública ofereça ensino com qualidade igual ao do setor privado, embora, também este, viva privado da liberdade de tomar iniciativas, vítima que é do excesso de regulamentação, como se todos os brasileiros fossem iguais, do norte ao sul de um país continente.

 

No Império e até a virada dos anos de 1970, errou-se em profusão, mas havia uma linha de coerência desenvolvimentista. Agora, o centro de gravidade dessa trajetória rompeu-se. Há muito discurso, pouca ação. Há longas quatro décadas, por exemplo, discutem-se reformas universitárias. Nada acontece, como nada acontece com as reformas tributária, financeira, previdenciária, política e a do judiciário, enfim, as palavras estão dissociadas dos atos. As autoridades estão mais preocupadas com o jogo do poder do que com a concessão de liberdade ao pensamento criativo da sociedade.

 

Resultado, perde-se tempo. Pior, perde-se a identidade. Perde-se a noção de que não estamos sozinhos no mundo e que, se não avançarmos, teremos inevitavelmente recuado. Santos Dumont e os construtores do Brasil republicano almejavam exatamente o contrário. O mundo não nos espera e quem fará a riqueza e o progresso, este colocado na nossa Bandeira, é o povo que, na corrente cartilha, pouco pode fazer.

 

Artigo Publicado no Jornal A Tribuna, em 16 de agosto de 2015.